Estamos a cada dia mais dependentes do acesso à internet e confiamos nela para tudo inclusive para ser a nossa memória. E se faltar a luz?


Após ler um artigo assinado por Helen Thomson que se baseou numa grande entrevista a Martin Conway, director do Centre for Memory and Law at City da Universidade de Londres e da sua publicação “Can I supercharge my memory?”, percebi que também tenho sido um rato de laboratório.

A questão é simples: estaremos a perder faculdades, principalmente cognitivas, pela simples utilização diária da internet?

A resposta pode ser complexa porque todos nós temos variáveis: a idade, a capacidade da própria memória, se somos visuais ou analíticos, metódicos ou desorientados.

Dou-me como exemplo: nos últimos anos, perdi grande parte da memória que guardava títulos, nomes, frases e poemas.

Dou até por mim com dificuldades em ter na ponta da língua o vocábulo certo para encaixar no pensamento do momento, escrito ou falado.

E o que faço? Para não perder tempo, googlo.

E com um mínimo esforço, recupero o que queria com o resultado encontrado devido a duas ou três pesquisas rápidas.

Um exemplo? Como se chama o actor de que não lembro o nome que entra naquele filme de que não lembro o título?

a) com a ajuda da memória visual, faço uma rápida viagem pelas imagens dos filmes em que o actor entrou até me lembrar de um.

b) escrevo esse título ou de um outro actor ou actriz que, repentinamente, me veio à cabeça por contracenar com ele.

c) tenho acesso imediato à biografia do actor e, na lista, está o filme que procurava.

Vocês desse lado, fazem o mesmo ou têm outra fórmula?

A nossa memória pode acabar quando a internet falhar

Passado e presente

Lembro-me de saber os títulos das músicas que fazem parte do album X do artista Y.

Lembro-me também de saber de cor mais de 30 números de telefone quando era fixo.

Agora? Os títulos são de singles de uma qualquer playlist e estão logo na capa de um qualquer serviço de streaming.

Quanto aos números de telefone, guardo-os no smartphone assim que os recebo.

Sei o meu e o da minha mulher e… já não é mau. Fixos ainda tenho três ou quatro na cabeça.

Sebenta ou stylus?

Como escrevo muito e sou vintage, ainda utilizo sebentas, blocos, papelinhos e resmas de folhas A4.

Aliás, não foram duas ou três vezes que trouxe comigo a toalha de papel das mesas de restaurantes com a conclusão de ideias dos participantes no convívio.

Um papel e uma caneta ainda são, para mim, instrumentos obrigatórios numa qualquer mochila ou local de trabalho.

Até mesmo na mesa de cabeceira para conseguir escrever aquele sonho fenomenal que dá um filme.

Podem perguntar-me, e a tecnologia? Essa está bem presente.

Por exemplo, até me sirvo da S Pen do Note 9 com afinco e mais que uma vez ao dia.

Mais uma vez, lá está, rabisco ideias, desenhos e, pasme-se, é o meu instrumento favorito para emendar erros em peças gráficas antes do envio para a produção.

Será que preservo algumas capacidades por ainda dividir estas acções através de dois métodos?

A nossa memória pode acabar quando a internet falhar

 

Estudos e exemplos

Diana Tamir, da Universidade de Princeton, teve uma ideia: escolher dois grupos de pessoas com o mesmo objectivo, visitarem um local.

A diferença? O primeiro grupo foi munido de câmaras fotográficas, smartphones e tudo o mais, o segundo foi de mãos a abanar.

Após a viagem, o teste: quem é que se lembrava de certos pormenores, cores, cheiros, etc.

Pois é, acertaram (ou talvez não): o grupo que tinha memórias dos locais de passagem foi o que não tirou fotografias nem tweetou ou instamagrou as ditas.

Ou seja, experimentou sensações que guardou bem no fundo da alma.

Tamir escreveu a propósito que “criar uma cópia impressa de uma experiência através dos media deixa apenas um fragmento nas nossas próprias cabeças”.

E se acham que isto não é grave, daqui a uns anos perguntarei se têm memória deste texto.

A nossa memória pode acabar quando a internet falhar

O turbilhão digital

Já fizeram as contas aos milhares de imagens, estados sociais, mensagens, comentários e fake news que absorvem diariamente?

Já tentaram chegar de A a B sem a ajuda do GPS? Saberão usar um mapa de papel, daqueles que vem dobrado e que é deixado no porta-luvas?

Quantos emails recebem por dia? Quantos conseguem ler? E desses, a quantos respondem?

Quantas vezes guardam artigos para ler mais tarde e, passado meses, encontram esse lembrete quando já não é necessário?

Afinal, qual é a importância do dia a dia na nossa vida se a desperdiçamos a ver os status dos amigos e conhecidos nas viciantes redes sociais?

E FOMO? Sabem o que é? Padecem dessa doença? Sim… é uma doença mental, assim como o Burnout e a depressão entre tantas, tantas outras.

“Quando pensamos que algo pode ser acedido mais tarde, independentemente de sermos testados, temos taxas mais baixas de recordação da informação em si e recordação aprimorada, em vez de onde acedê-la. Esses tipos de estudos sugerem que a tecnologia está a mudar as nossas memórias”, diz Sam Gilbert, da University College London.

“Cada vez mais, não precisamos de lembrar o conteúdo, mas apenas onde encontrá-lo”. (sic Helen Thomson)

Mas, atenção, nem tudo é negativo!

Outro estudo pediu a dois grupos de pessoas para memorizar duas listas de palavras em 20 segundos.

As que copiaram a primeira lista para um computador, em vez de exclui-la para passar à segunda lista, lembravam-se de mais palavras da segunda lista numa fase posterior.

Pelo que parece, o denominado “descarregamento cognitivo” liberta recursos cerebrais vitais que processam melhor as novas informações.

Por outro lado, a meta-memória está a ser destruída exactamente pela facilidade em como despejamos informações em listas digitais ao invés de tentar lê-las e até memorizá-las.

Um exemplo: procurar no Youtube um vídeo que demonstre passo a passo em como se muda um interruptor em vez de tentar perceber como esse interruptor funciona para desmontá-lo e montá-lo de forma lógica.

Ou procurar como se faz um efeito de Zoom In numa edição de vídeo com determinado software em vez de ler as instruções e aprender, passo a passo, os… passos.

Quem procura ajuda e resposta imediata através da internet tem menos conhecimento do tópico que as pessoas que não a utilizam. E isto é um facto.

A nossa memória pode acabar quando a internet falhar

Futurismos e alarmes

Deixo-vos com as palavras de Sam Gilbert em relação ao risco que enfrentamos ao deixar de perceber se as memórias vêm de nós ou das máquinas que utilizamos:

Esta é quase uma não questão se continuarmos a ter acesso a recursos externos. Mas se esses recursos desaparecerem – num exame, numa emergência, numa catástrofe tecnológica – podemos subestimar o quanto lutaríamos sem eles. Ter uma visão precisa de quão boa a nossa memória realmente é, é tão importante quanto ter uma boa memória em primeiro lugar“.

Martin Conway é mais dramático:

”Por enquanto, a tecnologia parece estar aprimorando ao invés de aumentar a nossa capacidade de memória, mas se a interface entre nós e os dispositivos se funde mais no futuro, o cérebro realmente começará a adaptar-se de maneiras que não podemos prever agora”.

Pergunto-vos agora: quem foi a autora que mencionei no primeiro parágrafo e que me fez escrever todo este depoimento?

Ah, pois é.

 

João Gata

Começou em vídeo e cinema, singrou em jornalismo, fez da publicidade a maior parte da vida, ainda editou discos e o primeiro dos livros e, porque o bicho fica sempre, juntou todas estas experiências num blogue.

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