Rendido. Pronto, logo na primeira linha, a conclusão.

Tive o prazer de ter nas mãos durante quase um mês aquela que é, sem sombra de dúvidas, a melhor câmara fotográfica compacta da actualidade. E reparem bem no adjectivo COMPACTA para evitar comparações com outras ofertas de outras marcas (e até mesmo da Sony) que podem ser mais pequenas que as tradicionais DSLR mas não chegam a ser compactas. E se, atrevo-me a escrever, esta RX100 tivesse uma sapata para acessórios e um visor electrónico seria praticamente imbatível.

fotos originais directamente da câmara sem qualquer edição

Vai arrasar a concorrência?

Não. E porque não? Por dois factores, o primeiro é o preço. 670 euros servem para comprar uma DSLR de entrada de gama e é complicado ter de escolher entre essa realidade e uma compacta. O segundo é o factor logotipo> os portugueses, acima de tudo (e tirei essa dúvida com um dos responsáveis pela marca que conhece bem o mercado internacional), estão muito agarrados às duas grifes principais, Canon e Nikon, e nichos específicos, como Fuji, Panasonic e Leica, sendo-lhes difícil olhar para a Sony como um player de grande qualidade. Mas desenganem-se… pelos últimos lançamentos, não só é de grande qualidade como se atreve a ultrapassar todos os adversários em algumas gamas. E lá por fora as vendas reflectem bem isso. De qualquer forma, os adversários também não estão a dormir, o que só é bom para os consumidores e entusiastas.

Quem diria que um dia as compactas com focal fixa voltassem a estar na ordem do dia, principalmente com a cada vez maior oferta de Micro 4/3 ou sistemas mirrorless? O sinal foi dado pela Fuji com as suas extraordinárias X10 e X100, depois surgiram todas as outras e agora a batalha parece estar concentrada na Sony RX100, Panasonic LX7, Canon S110, Casio ZR1000, Samsung EX2F e a Olympus XZ2, para citar algumas, quase todas (excepto a Samsung) com o fantástico anel rotativo multifunções, tão desejado pelos menos amadores nestas andanças da fotografia. Mas olhando para todas, percebe-se que há sub-géneros. De um lado a Sony e a Canon (mais compactas), do outro as restantes (mais encorpadas mas com sapata para acessórios) com a Casio a ficar bem no meio. E, com certeza, são todas espectaculares. Acontece que a RX100 tem uma grande, enorme diferença para todas as restantes, inclusive de gamas acima. Sim, plural.

O sensor de uma polegada

É bem verdade, a grande diferença é o sensor de imagem CMOS Exmor de 1″,  com resolução de 20,2 megapixels e lente Carl Zeiss Vario-Sonnar T de zoom óptico de 3,6x (equivalente 28-100mm) com abertura f/1.8-4.9.

Não se fica por aqui em termos de credenciais> grava vídeo em Full HD (1080p/60) e captura fotos de 17 megapixels enquanto… se filma. Grava em formato RAW, com espaços de cores Adobe RGB ou sRGB, o ISO vai de 100 a 25600, o LCD de 3″ tem 1,3 megapixels com a novidade de mais um pixel “branco” que permite mais qualidade de imagem sob luz forte (baptizado como “WhiteMagic”), autofocus contínuo (sim, também em vídeo) e muito, muito mais, já lá vamos.

Mas o sensor é a mais valia e que permite à RX100 comportar-se como uma DSLR e até ultrapassar muitos modelos de entrada e média gama. Poderão dizer “lá está o Xá a exagerar”, mas não. É ver para crer e dar uma olhada pela net e ler o que se escreve sobre ela ou, melhor, escolher alguns videos no Vimeo ou Youtube, para esclarecer muita dúvida.  Um sensor grande proporciona menos granulação em baixa luminosidade, maior riqueza de cores e grande alcance dinâmico – o espectro dos pixels mais escuros aos mais claros. Também é pré-requisito para aquela imagem profissional de fundo desfocado e a RX100 consegue-os facilmente. E se usarmos o anel rotativo em focagem manual, então temos verdadeiramente todo o controlo na ponta dos dedos. Isto coadjuvado pela abertura a f/1.8 torna realmente possível tudo o que era muito difícil, se não impossível, numa compacta.

Facilidades

As selecções de cena pré-programadas e, para mencionar as que irão ser mais utilizadas, digo eu, começo por referir o vício que é tirar fotos à noite com negros densos e profundos, grão quase nulo, tudo límpido, sereno, detalhado… principalmente com a utilização do modo Handheld Twilight que reduz quase todo o trémulo da mão (ideal para países frios), ou o modo 10 fotografias por segundo, ou a macro a partir dos 5 cm,  o Sweep Panorama (até 220 graus) horizontal, vertical e para a esquerda ou direita (é pena não fazer os 360 graus como já muita concorrência consegue), e um número gentil de filtros artísticos, alguns com sub-níveis, que dão o tal toque “photoshopiano” a quem gosta de ousar ou usar um outro tipo de linguagem. De qualquer forma, o branco e preto é fantástico e dei por mim a usá-lo bastas vezes.

O anel rotativo

É outra das mais valias da RX100 e tem uma enorme vantagem em relação a outros anéis, como os das Canon S100/110, que é a ausência de cliques físicos e sonoros. O anel roda livremente sem nenhum obstáculo o que permite a sua utilização sem limites nas, por exemplo, gravações de vídeo com audio directo (stereo). O da Canon S110 (que tenho neste momento para teste) é até complicado de se girar, um pouco “duro” se é que me faço entender… mas ainda bem que lá está.

Este anel controla desde o foco manual à exposição, valor ISO, selecção de filtros, exposição e zoom. Tudo seleccionado por um botão específico no painel traseiro (que alberga a maior parte dos controlos e ainda outro anel rotativo de navegação, já usual em muitas marcas).

Controlos físicos

São cinco os botões no painel traseiro e dois bem importantes, para além do Dial e dos quatro extremos clássicos. O botão Fn ajusta a configuração da foto e o botão Menu ajusta a configuração da câmara. Com isto memorizado, todo o processo é bem mais fácil, com o looooooongo menu muito bem dividido e estruturado, que nos permite fazer tanta, mas tanta selecção que não teríamos nem tempo nem paciência para ler este ensaio. De qualquer forma, existem videos que mostram todas as funções do menu. Basta pesquisar, mais uma vez, no Youtube ou similares.

O corpo da RX100 é diminuto mas é feito em alumínio e nota-se bem o “made in Japan”. Os controlos, principalmente o Mode Dial, é agradável ao tacto, tem um tamanho coerente e bem ajustado. Os restante estão bem colocados e pecam por serem poucos mesmo assim. Gostava de ter um ISO directo, um interruptor de modos de focagem à la Fuji, mas não. Tudo muito minimalista, muito arrumado, muito nipónico, para o bem e para o mal. Um dos males é não ter uma capa de pele ou borracha colada na frente esquerda para não a deixarmos deslizar da mão… Mas existem soluções muito bonitas, embora caríssimas.

E já que continuamos nos defeitos, a ausência de uma sapata é, quanto a mim, um factor decisivo para desistir da compra, pois com o ecrã fixo seria bem vindo um EVF externo. A falta de carregador obriga à utilização do cabo na própria câmara. É bom por um lado, mas mau para quem quer transportar mais baterias. E a saída HDMi, mesmo ao lado da rosca para o tripé, torna quase impossível a monitorização da imagem num ecrã externo ao utilizar… um tripé.

Bom seria, devido às características, existir uma entrada mini jack para micro exterior, pois não há sapata e o micro é demasiado sensível ao vento, sendo impossível utilizar um qualquer corta vento.

Zoom, Auto Crop e qualidade real

O zoom pode parecer pequeno, 3,4x, mas depois existe o… digital. Não, não torçam o nariz. Esta solução da Sony é brilhante a todos os níveis, não perdendo a qualidade a que estamos habituados nos outros zooms digitais, sendo extremamente util e que garante mais um factor positivo na tabela final. Lá está também a edição automática Auto-Crop que já referi no Ensaio à Nex F3 que, simplificadamente, reinterpreta a foto que tirámos e ajusta o enquadramento com resultados até muitíssimo interessantes.

Mas vamos à qualidade real, aos tais 20 megapixels, ao video HD 1080p. Vai ser difícil desfocar um retrato. Mesmo em modo manual, a focagem tem a ajuda preciosa do MF Assist que aumenta o ponto desejado para visualizarmos o que estamos a fazer. Logicamente que esta característica sofre com o sol ou luz directa no ecrã, mas é extremamente prática. Existem muitas ajudas automáticas às nossas acções, inclusive uma régua de nível bem vistosa e presente, o reconhecimento Intelligent Auto Scene é rápido, analisando o ponto de focagem e escolhendo o modo mais indicado (existem 11). O Superior Auto Mode reduz o ruído e o grão e enfatiza o espectro dinâmico. O reconhecimento de face ajusta automaticamente o foco, exposição e balanço de brancos tendo em conta a pessoa enquadrada (percebe mesmo quando se trata de um adulto ou criança), existe o automatismo do sorriso, temporizador, etc, alguns dos quais podem ser utilizados simultaneamente.

É todo um mundo à disposição dos menus e demais botões.

E finalmente, os resultados. E quanto a isso, regressemos à primeira frase. São, indubitavelmente um estrondo no bom sentido! As fotos têm a dinâmica e características de câmaras profissionais. Os automatismos ajudam realmente a que os bonecos fiquem quase sempre bem. Os negros são densos, os brancos puros e é notório o degradé da luz nos retratos com mais contraste. À noite é rainha, chegando aos resultados da Alpha57 que muito me impressionou neste campo. E os valores ISO mais altos, quando bem aplicados, “iluminam” o que não se vê. O flash é equilibrado e bastante potente para o tamanho e manobrável para cima com um dedo.

O vídeo é outra das mais valias. Com 1080p HD e micro stereo, garante 1920×1280 ou 1440×1280 pixels a 50/60p ou 50/60i no formato AVCHD e 1440×1280 ou 640×480 pixels a 30fps em MPEG4. Já mencionei que se pode tirar fotos com 17 mp simultaneamente e que o tempo limite de gravação é de 30 minutos.

Todos os filtros, compensações e automatismos podem ser utilizados no modo vídeo o que é muito prático e convida à criatividade in camera, como se costuma dizer. Menos, e aqui outro factor negativo, o filtro ND que pura e simplesmente não existe. É até incompreensível.

Mas como tudo o resto é apenas extraordinário, somos levados a desculpar este e outro erro.

Concluindo

É a câmara do momento, a mais desejada e badalada, a que elevou a fasquia muito, muito alto e que tornou a Sony, antes perseguidora, na marca perseguida. Como foi possível meter tanta coisa num corpo destes, só eles sabem. O que é certo é que a factura é pesada e que vai fazer tremer muito boa gente. Mas é uma máquina apontada para o fotógrafo semi e profissional que pode ter nela uma companheira prática e leve para o trabalho.

Alguns dizem que até já colocaram a mochila de lado, no caso das reportagens e street action. Eu dei por mim a colocar a RX100 ao lado do smartphone, carteira e chaves de casa e carro. Passou a ser mais um elemento diário, obrigou-me a olhar para todo o lado com um entusiasmo de descoberta juvenil. O tamanho é ideal para fotografar ambientes complicados, anónimos, recantos, proibições. Convida a isso e muito mais.

E o que mais se pretende de uma máquina para além de extrema qualidade? Que nos preencha a alma. E a RX100 fá-lo… com AutoFocus Assist e tudo!

Camila Hoffman

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