Guiei, em tempos, o primeiro classe A, logo a seguir ao problema do teste do alce que foi verdadeiramente danoso para as aspirações comerciais do primeiro mini da Mercedes mas que, em perspectiva, foi um dos melhores acidentes que podia ter acontecido à humanidade em geral, pois a partir daí os testes de segurança foram muito reforçados, o que se traduz hoje na segurança acrescida de todos os veículos.

Portanto, há que agradecer a este conjunto de situações o que de muito bom se consegue hoje. E sim, esse mesmo classe A, o do alce, tem, desta forma, o seu lugar na história.

Ao longo dos anos, a Mercedes foi melhorando o seu A mas ninguém esperava que esta mais recente geração rompesse com o traço tipo monovolume de todos os anteriores. Aliás, ninguém estava à espera que a Mercedes desenhasse e lançasse um dos mais bonitos automóveis do segmento, para não dizer de vários.

Quanto a mim, e é uma opinião pessoal, o classe A é, ao lado do novíssimo Volvo 40, um dos carros mais elegantes e bem conseguidos dos últimos anos em termos de imagem… e que bem estão a fazer a ambas as marcas, sendo sucessos comerciais na maior parte dos mercados onde foram lançados.

Calhou-me em sorte o magnífico A220 CDi BlueEFFICIENCY preparado com o kit AMG. Em sorte porque fui eu que o guiei e experimentei um pouco por todo o lado. Os passageiros não foram tão afortunados e explicarei lá mais para baixo.

O que se pode dizer deste A preparado, com suspensão rebaixada 15mm, umas super jantes muito bonitas de 18” com pneus de baixo perfil e vidros escurecidos, um contraste dinâmico e muito desportivo com a cor branca de toda a carroceria?
Bom, faz virar cabeças. Muitas. Os apêndices aerodinâmicos, a dupla ponteira de escape marcam presença. Todo o aspecto é de “grande bomba”.

 

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O interior

Mal nos sentamos ficamos a olhar e a tentar descortinar todos os comandos. Esta versão, equipada com caixa automática dupla embraiagem 7G-DCT e manetes no volante multifunções, trás também todos os sensores, o que significa… funções. E elas são muitas, como podem atentar pelas fotografias.

Perdi mesmo algum tempo dentro do carro antes de iniciar a marcha. Primeiro, porque a Mercedes tem o travão de mão eléctrico e por baixo à esquerda do volante que convém destravar mas com o pé no pedal do travão. Segundo porque, automático, há sempre uma diferença para colocar a primeira marcha em relação a outros engenhos similares. Terceiro, são tantas as manetes que tive de me certificar que tudo estava em automático (sensores, iluminação, etc.). Quarto, como funciona o ecrã que não é táctil? Ah, através da roda de comando que, só depois de algum tempo, é que percebi que também, para além de um ‘click Enter‘ para baixo, também tem outro click para trás e esse é que nos faz movimentar e selecionar os muito parâmetros do sistema multimédia.

Tudo compreendido, tempo para apreciar o habitáculo. Posso dizer que é, para mim, muito apelativo, pois é um casulo desportivo e dinâmico, excelentes bacquets de semi-competição (obrigatórias devido à velocidade com que se passa a abordar algumas curvas) e tudo de cor preta, inclusive o revestimento do tejadilho e laterais, apenas entrecortados aqui e ali por perpontos a vermelho nos bancos e volante.
Mas o que é bom para quem guia, e este é um automóvel egoísta, não é tão simpático para quem vai ao lado e, pior, atrás.

 

 

O conforto

Ou a falta dele… O A220Cdi é um carro para andar rápido, curvar ainda mais depressa e travar nos limites. E sim, mesmo sendo um diesel, provoca o condutor a cada metro percorrido. Os pneus estão lá, largos, perfeitos, a suspensão é dura e o rolamento em curva quase inexistente. Quem não carrega no acelerador sabendo que pode fazer as coisas mais depressa e com um grande, enorme sorriso estampado na face?

Mas o egoísmo do condutor é travado pela falta de conforto para todos os passageiros, inclusive quem vai na frente. É complicado gerir esta brusquidão constante, este ser abanado de um lado para o outro e de cima para baixo. E, afinal, a cor negra do interior é até um pouco claustrofóbica, como me foi desabafado pela passageira mais jovem que também se queixou da pouca área envidraçada.
Quem ia ao meu lado, esforçava-se por não dizer nada, pois sorria ao ver uma felicidade estampada no meu rosto com o tal sorriso alargado. Mas no fim, quando a inquiri directamente, afirmou que se sentiu enjoada de vez em quando. O 220CDi é brusco, viril, pouco confortável.

Convém dizer que estas reacções foram provocadas por trajectos apenas citadinos e foram apontadas durante o teste mais duro que se pode fazer a um automóvel em, acho eu, qualquer capital europeia: o empedrado ‘solavancado’ que faz a Expo (ou Parque das Nações) de uma ponta à outra e a 20 km/h e o novo empedrado com chicane e buracos nessa obra no mínimo estranha e de Santa Engrácia que acontece no eixo Terreiro do Paço – Cais do Sodré.

Mas uma vez sozinho, apontei ao Eixo Norte Sul e deixei-me ir, um pouco mais tarde que o habitual, para poder perceber o comportamento deste “mini” no seu habitat natural: a auto estrada.

E aí, sorri ainda mais.

 

O equipamento

O que dizer de um automóvel que tem tudo e mais alguma coisa? Só para ficarem com uma ideia, esta versão conta, para além da já extensa lista de equipamento de série, com os seguintes extras:

  • Sistema de estacionamento activo (690€)
  • Comand online (1700€)
  • Thermotronic (AC auto) (528€)
  • Faróis Bi-Xenon ((772€)
  • Linha AMG Sport (2,032€)
  • Pack Night (406€)
  • Pack Conforto (528€)

(valores arredondados)

Mas atenção: esta versão já vem equipada com mundos e fundos, desde o excelente sistema áudio, ao Tempomat, Attention Assist, sistema ECO start/stop, travagem adaptativa com função Hold, Sistema de prevenção de colisão, Windowbag, Airbags (também de joelho) e Sidebags, ASR, ESP, o muito bom volante multifuncional e muitos etc..

Na verdade, este A está tão completo que quatro dias foram parcos para experimentar tudo. É um veículo cheio de automatismos e funcionalidades que não são comuns nesta gama, mas que também eleva vertiginosamente o preço final.

 

 

O motor

Há qualquer coisa de fascinante neste motor com 170Cv (2.1 litros turbodiesel) e 350Nm (dizem que semelhante à unidade A250).
Garante um enorme prazer de utilização, quer em cidade, em que podemos perfeitamente guiar em velocidades baixas sem esforço e em modo automático para, quando precisamos, afundar o pé no acelerador para toda a potência ir surgindo), quer em auto estrada ou vias mais rápidas. Contudo, é nos ziguezagues de alguns troços com bom piso que todas as potencialidades do conjunto vêm ao de cima. E aí sim, não podemos levar penduras, pois é um carro para o condutor. E para o enorme sorriso desse condutor.

A potência está lá, mas não surge imediatamente. Aliás, existe um lag evidente até que o motor “acorde” na sua plenitude, mas não nos podemos esquecer que estamos a guiar um diesel, por muito que custe a acreditar. Até o som do motor tende a fazer-nos esquecer esse “dado”.

Um amigo questionou-me com uma certa razão: qual é o interesse de se comprar, por bastante dinheiro, um diesel que quer ser desportivo e não optar pela “real thing”?
Respondi-lhe ao final dos quatro dia de teste em que devo ter rolado cerca de 400 km, o depósito nem a meio chegou. E não fui meigo por diversas vezes.
Ok. Quem tem cerca de 50 mil euros para comprar esta versão, não deve estar muito preocupado com os consumos… mas isso fica ao critério de quem pode optar.

A caixa automática de dupla embraiagem tem sete velocidades e responde bem e depressa, principalmente se guiarmos em modo totalmente automático. Mas se optarmos pela utilização manual, a utilização das manetas de mudanças colocadas no volante, transmitem imediatamente outra dinâmica e provoca mais dinamismo na condução. Por mim, preferia que as manetas fossem um pouco maiores e mais salientes, pois seriam mais confortáveis e rápidas em termos de utilização. E, ainda por cima, gosto de guiar carros com esta função. Faz-me lembrar umas voltas que fiz com um Ferrari no autódromo do Estoril…

O motor podia ser mais responsivo quando pressionamos o pedal com toda a força, mas existe o lag e temos de contar com ele. Logicamente que falo da mudança de relações baixas para altas. Se já formos em andamento mais vivo, isso deixa de se notar. Mas a polícia e os radares acabarão por terminar a brincadeira.

 

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Concluindo

Quem não gosta de uma máquina destas? Bom… os passageiros. Mal entreguei este AMG, pedi à Mercedes a versão Urban para ter a real noção do que é o novo Classe A.

Este 220CDi é um carro de corridas, com temperamento agressivo e gosta de ser dominado com mestria e alguma rispidez. É um automóvel para condutor que, ocasionalmente, pode levar os miúdos à escola e transportar as compras do mês (a mala não é muito grande).

É um automóvel temperamental, quase um puro sangue (o lag não deixa que o seja em toda a plenitude), que precisa de mãos que saibam o que estão a fazer e de pés que tenham muita experiência.

Mas esqueçam levar a avó a dar uma voltinha de fim de semana, ou fazer um passeio romântico por estradas um pouco mais estragadas.

Se em termos dinâmicos é yin e yang, visualmente é muito bonito. A qualidade de construção nota-se em todo o lado e é o seu interior que cativa o target masculino. A pele misturada com fibra de carbono resulta muito bem. Os apontamentos encarnados num interior todo negro, apelam a uma relação sensorial incomum. Mas é demasiado escuro para uma utilização a longo prazo.

O equipamento é vasto e tem tudo o que precisamos e o que não precisamos. O ecrã poderia estar inserido numa consola central redesenhada. Fica assim a modos que “pendurado” e a primeira noção que tive foi de que é um chamariz para ladrões que pensam que podem sair dali com um tablet debaixo do braço. Por outro lado, poderia ser táctil, mas em vez disso temos um comando selector que necessita de alguma aprendizagem. Mas uma vez dominado, é fácil inserir os dados para a navegação (excelente mapa, excelente!), as funções do smartphone, etc. A qualidade de som é soberba e estão presentes as entradas para todos os equipamentos digitais.

A visibilidade traseira é má, mas como no equipamento estão ajudas à condução e sensores de aproximação, arrumar o carro não é tão difícil quanto se antevê. Pelo contrário, a direcção automática e assistida da Mercedes continua a ser exímia e ímpar.

Os sensores ajudam à atenção na condução. A iluminação é fantástica, progressiva e adaptativa e os sensores funcionam mesmo. Mais uma vez, não choveu durante o ensaio, portanto, não sei se esse sensor funciona.

O sistema Eco start/stop é muito rápido e eficaz, e, como já afirmei, o A220CDi é comedido nos consumos, mesmo numa utilização que nunca foi constante em termos de comportamento. Com essa realidade e um comportamento fantástico em bom piso, viagens longas são as pistas para este modelo de eleição.

 

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E pela segunda vez, o Xá das 5 vai dar notas de 0 a 10.

  • Design                             9
  • Motor                              8
  • Comportamento         8
  • Conforto                        3
  • Equipamento             10  (na versão ensaiada)

 

Preço

Preço base   28,050.24€

Extras             6,666.68€

ISV                   5,917.73€

TP                        975.61€

Eco valor               4.80€

Sub total      41,615.06€

IVA 23%        9,571.46€

TOTAL     51,186.52€

João Gata

Começou em vídeo e cinema, singrou em jornalismo, fez da publicidade a maior parte da vida, ainda editou discos e o primeiro dos livros e, porque o bicho fica sempre, juntou todas estas experiências num blogue.

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Analista ao volante do novo Mercedes Classe A

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