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Esta foi a minha primeira experiência com um automóvel totalmente eléctrico. Confesso que esperava esta oportunidade faz tempo, mas na verdade, não é fácil encontrar um modelo disponível para ensaio. Finalmente surgiu o Zoe, esteticamente até o mais conseguido dos modelos que vemos, embora raramente, pelas nossas estradas. E digo-vos já: não fiquei fã. Fiquei, isso sim, pleno defensor deste automóvel. Tem defeitos, sim. Mas para um determinado tipo de utilizador ou utilização é apenas fenomenal.

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Carregar o carro

Ora aqui está o primeiro obstáculo para quem o faz pela primeira vez, o que foi o meu caso. Como a estação perto de minha casa estava cheia de carros convencionais, fui obrigado a dar umas voltas até encontrar um posto vazio. Depois foi perceber como funciona o cartão, o código e as tomadas. Para não ser chato, descrevo apenas o que se deve fazer: aproximar o cabo da estação Mobi.e (pode até ficar a dois carros de distância, visto que o cabo é longo. Passar com um cartão tipo crédito no sensor da estação, marcar o PIN, e escolher a operação no menu como o posto de abastecimento (normalmente o 1 está preparado para ficha eléctrica normal, o 2 para a tomada específica e que é bem mais rápida a “encher o depósito”).

O cabo fica bem preso em ambos os extremos para evitar qualquer tipo de roubo, pois vamos deixá-lo na rua ainda algumas horas. No final da operação, basta passar novamente com o cartão pelo sensor para terminá-la. Isto deve ser concluído para soltar as tomadas de ambas as fichas. Depois de descobrir, é bem simples.

 

O esquema de aluguer

O que mais faz confusão às pessoas que me perguntavam “então como é que isso anda?” ou “quanto é que gasta aos 100?” e “E se ficar parado na estrada?” é mesmo o aluguer da bateria: custa, por mês, quase 80 euros (já com impostos) se fizermos um contrato de três anos (12.500 kms por ano). A este valor, há que aumentar o dinheiro que custa a carga (um depósito ronda os dois euros).  Ou seja, se cada recarga do Zoe pode conseguir até (repito, até) 200 kms de autonomia (grosso modo e em regime poupado), basta fazer as contas ao que percorremos (neste caso gastamos) diariamente. Se fizermos, a título de exemplo, 50 km /dia, gastamos 50 cts, o que dá 35€ ao fim do mês (+ 80 = 115€). Acho que fiz bem as contas. Mas podemos pensar neste dinheiro com um enorme sorriso, visto que estamos a enviar ZERO emissões de CO2 para o ambiente e a nossa pegada ecológica fica menos profunda para as gerações vindouras.

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O comportamento

Este motor tem 88 cvs e faz um arranque à lá Ferrari! Dá até muito gozo brincar aos semáforos com as bombas do lado. Mas não façam isso fora de casa… Dos 0 aos 50 km/ passam apenas 4 segundos, de forma progressiva e muito confortável. É muito fácil guiar este Zoe mas necessitei de um certo período de adaptação logo no início. Nada que os primeiros metros não ultrapassassem. A unidade deste ensaio já passou por outras mãos e, talvez por isso, tenha sentido os travões um pouco esponjosos. Precisei também de fazer um Reset à minha própria forma de conduzir, pois a ausência de som – apenas se ouve de vez em quando os dínamos a recarregarem – é deveras estranho. E temos de ter o triplo do cuidado por causa dos peões. Se os portugueses se atiram de qualquer forma para a estrada, imaginem se não ouvem o carro a aproximar-se… Existe uma solução, que é utilizar um sintetizador de som que imita o do motor. E se eu ficasse com um Zoe, era dos primeiros extras a instalar, optando depois por uma das três opções: Sport, Glam e Pure. Existe um automatismo associado que liga e desliga este sistema, designado por Zoe Voice, a partir dos 30 km/h.

 

O carro

O Zoe tem a mesma plataforma do novo Clio, mas está bem mais alto e encorpado. O design exterior é inconfundível, com faróis bem rasgados à frente e salientes atrás com molduras em azul assim como outros elementos decorativos. Dá nas vistas, mas de uma forma agradável, tendo um ar bem simpático.

Cinco portas e uma bagageira satisfatória (338/1225 l), embora já preenchida com dois imensos cabos.

O espaço para cinco passageiros (quatro é melhor) garante o famoso conforto gaulês. Aliás, os bancos da frente, numa única peça, são mesmo muito confortáveis, acompanhando todo o nosso corpo até à cabeça. Nota muito positiva.

Espaços para arrumação… nota menos. Encontramos os típicos, uns mais escondidos que outros, mas para um carro moderno deveriam existir mais compartimentos. Destaque, contudo, para a bela ideia do bolso na parte traseira dos bancos frontais.

Os materiais seguem este exemplo: rígidos mas muito leves. A preocupação com o peso foi uma constante e até os pneus são exclusivos deste modelo (Michelin Energy TM E-V, o que pode ser um problema aquando um furo). Não chega a ter um aspecto futurista, mas tem elementos que o destacam do “maralhal” o que é bem positivo e agradável.

Não se assustem com a rigidez dos materiais. O carro já tinha uns milhares de kms feitos (e presumo que a maior parte nos buracos lisboetas) e não ouvi um ranger, um ruído parasita no seu interior. Francamente, fiquei até surpreso, pois não estava à espera.

O conforto é mais um factor positivo. O Zoe é um sofá (excepto em curvas apertadas) e filtra muito bem todos os buraquinhos e saliências dos pavimentos. O rolamento é tão suave que nos esquecemos até da velocidade a que vamos, pois é fácil, demasiado fácil (devido ao silêncio e à insonorização do habitáculo) perdermos a noção da realidade (ou seja, as rotações do motor).

 

Particularidades

O Ar Condicionado é também inovador, pois mantém a temperatura ambiente sempre nuns confortáveis 22 graus. Evita também a secura da pele, controlando a humidade dentro do habitáculo. As bolas nos bancos são uma excelente ideia e o material que os cobre está preparado contra nódoas e outros azares. Existe também um borrifador de perfumes (podemos escolher o odor) que liberta um invisível spray de forma automática de tempos a tempos.

Como não poderia deixar de ser, o Zoe está equipado com o já conhecido sistema R-Link (internet, GPS, Audio, telefone, etc.), agora optimizado para legendar e explicar o comportamento eléctrico. De salientar que, através do ecrã, podemos observar uma animação que nos demonstra que estamos a gerar energia, através do sistema de travagem regenerativo. Aliás, este sistema funciona, e foi uma das diversões que tive durante os dias de ensaio. Consegui, de vez em quando, terminar um curto trajecto com mais percentagem energética do que à partida.

Este Zoe vinha também equipado com o carregador camaleão (monofásico ou trifásico e compatível apenas com as estações eléctricas), mas trazia também um segundo carregador que nos permite recarregar a bateria a partir de uma tomada eléctrica comum. Ainda estava em fase beta, mas é muitíssimo bem vindo.

 

Conclusão

Como perceberam, fiquei fã. Gostei mesmo do Zoe.

Se o comprava? Sim, se fosse o segundo carro. Quis, nesta altura, visitar a “mávelha” que está a estudar em Leiria e desisti da ideia, pois são 300 kms fora as voltinhas. Confesso que tive medo em arriscar ficar a meio da viagem.

Mas para cidade e com garagem à noite, é perfeito. Sem estes autocolantes, claro está.

Pena é que um país que está sempre a falar e a gastar dinheiro em energias alternativas, não ajude a que os veículos eléctricos tenham uma possibilidade comercial. É impensável, para uma família, gastar o dobro em Portugal do que qualquer outra em França ou Alemanha, onde existem políticas de incentivo concretas e realistas. Sem falar dos ordenados médios. Este é o maior óbice para o sucesso do Zoe. Mas, sabemos bem, a PSP pode sempre comprar um para estacionar na Praça do Comércio.

PVP: a partir de 21.275,60€

 

 

 

João Gata

Começou em vídeo e cinema, singrou em jornalismo, fez da publicidade a maior parte da vida, ainda editou discos e o primeiro dos livros e, porque o bicho fica sempre, juntou todas estas experiências num blogue.

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