Estamos a ser vigiados, gravados e… entalados

Receberam um novo smartphone no Natal?
Não se esqueçam da segurança, dos parâmetros e métodos, e se o telefone for dos bons, podem escolher para além do PIN ou do ziguezaguear com o dedo, a impressão digital, por botão ou pressão no ecrã, telemetria óptica e reconhecimento facial.

Portanto, e com todas estas super seguranças, ninguém poderá aceder ao nosso equipamento, certo, pelo menos sem nos cortar o indicador ou nos tirar um olho.

O problema é que todos estes passos são infrutíferos, não resolvem coisa nenhuma, pois haverá sempre um hacker que ultrapassa qualquer barreira por um punhado de dólares, como o Trinitá.

Mas nem esses piratas são equivalentes ao verdadeiro demónio, ou seja, à captura, gravação e indexação de todos os dados relativos à nossa vida. E, o problema, é que nem são obrigados a meter-nos numa sala escura para consegui-los. Basta equipar um novo smartphone com uma função futurista que todo o rebanho, eu inclusive, corremos para satisfazer uma necessidade que nunca tivermos anteriormente.

FoMO? O que é isso?

Há muita gente que explica esta nossa correria como sendo uma doença, até eu já apresentei um painel de discussão sobre FOMO, fear of missing out – ou seja – o medo de ficar de fora e perder algo que julgamos muito importante.

Mas, na verdade, e no final do dia, somos nós que gravamos a nossa impressão digital, aliás, até mais que uma, a nossa íris e a nossa face, aceitamos tudo sem ler, queremos é obter, ficar com a aplicação, o jogo, a ferramenta.

Pois que não há almoços de borla, muito menos no séc. XXI e numa ou outra casa alentejana, e o que é certo é que vamos pagando de alguma forma todos os serviços que julgamos gratuitos.

É interessante ver um português a barafustar quando alguma entidade lhe pede o cartão de cidadão para fotocopiar, é que nem pensar, mas ninguém o estranha a fornecer esses dados, e os bancários, a um qualquer armazém chinês.

Reconhecimento Emocional

E digo chinês porque é deles que quero falar. Muito recentemente, aconteceu uma feira tecnológica em Shenzhen, um dos maiores pólos tecnológicos do mundo. E o que teve esta feira de especial? Usou uma tecnologia que gravou as caras de todos os visitantes, toda a informação dos traços individuais, ao mais ínfimo pormenor, a que chama Reconhecimento Emocional.

Esta tecnologia é usada para prever possíveis crimes, actos terroristas, sei lá, discussões entre antagonistas. Logicamente que me fez lembrar o papel que Tom Cruise desempenha no filme Relatório Minoritário, uma feliz tradução de Minority Report de Steven Spielberg.

Neste filme, Cruise interpreta um chefe da polícia Pré-Crime que tenta travar e apanhar os criminosos antes de sê-lo, ou seja, antes de praticarem o crime.
Esta ideia, tirada de mais uma obra do genial Philip K. Dick, gastou muita tinta e alimentou muita discussão. Havia quem estivesse contra a ideia de perseguir inocentes antes de praticarem um acto menos nobre, outros que defendem um futuro com este tipo de solução.

Ora se o genial autor escreveu a obra em 1956, e sendo o filme de 2002, chegamos à terceira década do segundo milénio com esta realidade.

Mas o maior problema nem é o reconhecimento oficial da utilização desta tecnologia durante esta feira tecnológica. O governo chinês já a utiliza em aeroportos e estações de metropolitano das principais cidades.

Pior, as companhias tecnológicas são cúmplices na massificação do acto, pois a tecnologia é desenvolvida pelas Alibaba, Tencent, Hikvision e Dahua da vida e, a crer em algumas fontes, já estão instaladas em serviços públicos e escolas.

Logicamente que, já sabemos, a tecnologia que hoje é usada no lado de lá, será adoptada brevemente do lado de cá.

E agora, como se sentem, sabendo dá máxima que “uma vez na net, sempre na net”, ou seja, “uma vez a impressão digital ou a gravação da íris gravada no telemóvel, para sempre nos registos mundiais”…

João Gata

Começou em vídeo e cinema, singrou em jornalismo, fez da publicidade a maior parte da vida, ainda editou discos e o primeiro dos livros e, porque o bicho fica sempre, juntou todas estas experiências num blogue.

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