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Os produtores e exibidores cinematográficos têm um sonho desde há décadas que é conseguir emular os restantes sentidos humanos que não a visão e a audição. Nos anos 70, quem não se lembra do sistema Sensurround inventado pelos estúdios da Universal que consistia na brutal amplificação do som reforçada com cadeiras vibratórias que tentavam, em conjunto, criar emoções muito fortes no espectador? O primeiro filme, datado de 1974, foi “Earthquake” que por cá foi exibido como “Terramoto”, se não estou em erro, no saudoso cinema Monumental e tudo vibrava, sala, cadeiras, pessoas, prédio. O sistema era um sucesso mas foi também um poço de problemas, com danos estruturais nos edifícios, impossibilidade de ver outro filme numa outra sala nos kms mais próximos, e chegaram mesmo a caír tectos que feriram pessoas (nos EUA, obviamente). Foi abandonado pouco tempo depois.

Outra invenção foi a exibição, atenção ao ano – 1960 – do filme “13 Ghosts” que, ao contrário do mito urbano que refere pequenos choques eléctricos “oferecidos” pelas cadeiras, inovou numa espécie de 3D primitivo. O sistema denominava-se Illusion-O e obrigava o espectador a usar dois filtros, um vermelho e outro azul, mas simultaneamente, em vez de um em cada olho como mais tarde se apresentaram as primeiras películas em 3D.

Um ano antes, em 1959, foi estreado com grande pompa em NY “Scent of Mystery”, o primeiro filme Smell-o-Vision que, como a designação indica, consistia num sistema que borrifava a sala com vários odores em sincronismo com a narrativa. Desde rosas a vinho, os espectadores eram banhados com estes sprays e a coisa não resultou porque demoravam muito tempo a chegar à malta que estava no balcão. O filme foi reintitulado “Holiday in Spain” já sem o sistema para tentar ainda algum lucro.

Ainda recentemente, e em Portugal, uma agência de comunicação criou um cartão com bolhas cheias de fragrâncias. À medida que o filme ia passando, surgiam umas legendas no ecrã que indicavam a bolha a rebentar. Ao que parece, também houve alguma confusão, pois o sistema não era prático. Mas serviu a acção.

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Esta “perseguição tecno-sensorial” parecia ter os dias contados mas eis que chega o senhor David Edwards, um inventor e filantropo, professor em Harvard, que através da sua entidade parisiense Le Laboratoire, propõe o oPhone, um cilindro que em conjunto com algum hardware e uma aplicação denominada oSnap, promete a transmissão e recepção de mensagens com…. cheiro. Exactamente! Estas mensagens denominam-se, graciosamente, por oNotes e têm a forma de textos, imagens e sons que serão acompanhadas por 300.000 aromas e em… estéreo. Estes… enfim, canais estereofónicos, são os dois cilindros receptores que, conjuntamente com um iPhone e uma base, fazem o conjunto oPhone cujo primeiro modelo, na foto abaixo, se designa por Duo.

Esta app poderá ser descarregada a partir de 17  de Junho e disponibilizará 32 aromas originais. O utilizador pode combinar entre um e oito odores para criar o seu próprio aroma, daí o número impressionante de 300 mil combinações. Imaginem-se a olhar para um expositor com flores, tiram uma foto, acrescentam-lhe uma oNote e enviam o SMS.

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David aposta mesmo é na multiplicação do conceito que, a funcionar, poderá ser um sucesso sem paralelo. Pelo site oficial, ficamos a par dos planos para o lançamento da oMedia, oBooks, oFilms e oSongs que terão a sua base no site geral. Mas mais importante é o subsídio. O site indiegogo terá uma campanha especial de angariação de fundos de 17 a 31 de Julho. Se tudo correr bem, o aparelho será fabricado e colocado à venda por 200 euros. Os primeiros “apostadores” terão um desconto de 50 euros. Nada mau.

Como se imagina, o campo de aplicações é quase infinito, desde a medicina à indústria,  mas o comércio digital parece ser o sector mais apetecível.  

“Temos tido conversas com representantes mundiais de alimentos,  cinema, perfumes, viagens e carros”, afirmou o inventor.

Resta-nos esperar para… cheirar.

 

João Gata

Começou em vídeo e cinema, singrou em jornalismo, fez da publicidade a maior parte da vida, ainda editou discos e o primeiro dos livros e, porque o bicho fica sempre, juntou todas estas experiências num blogue.

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