Netflix: o novo Big Brother?

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Num dia pensamos “bolas, estes anúncios nunca mais acabam e, bem pior, o som fica muito mais alto durante a publicidade, o que ainda por cima é proibido”. E o que fazemos? Até agora, pouco. Mudávamos de canal, escolhíamos um DVD, colocávamos um CD… ligávamos o PC, tablet ou consola, mas sempre com alguma pena por não continuarmos a ver a série preferida ou o filme sem interrupções.

Devido à omnipresença destas, alguns optaram por checar o que estava disponível para download ou streaming, mesmo sabendo que era e é ilegal trocar ficheiros com outros internautas. Mas o cerco apertou-se de tal forma, que só os mais carolas têm a experiência ou o conhecimento técnico para continuar a usufruir daquilo que a internet oferece.

Mas eis que surge um serviço que promete mundos e fundos (depois das aventuras de outros tantos) e que veio para ficar. Chama-se Netflix e já é global (está em todo o mundo à excepção da China e mesmo essa está a ser discutida). Gastando uma média de 10€, o apreciador de conteúdos televisivos e cinematográficos compra (ou paga) o acesso imediato à totalidade dos episódios de uma “season”, sem ter de esperar uma semana pelo próximo episódio e, atenção, sem a maldita publicidade ultrapassada no tempo e na forma.

A contar pelas adesões a nível mundial, o serviço é um sucesso sem precedentes. Afinal, e contra toda e qualquer hipótese levantada pelos responsáveis que queimaram a indústria de entretenimento (e que eram os seus responsáveis máximos), o consumidor está disposto a pagar pelo que consome, desde que o preço seja “justo”. Assim se vê no Spotify e assim se vê no Netflix (para citar exemplos).

Mas eis que olhamos para a nuvem carregada de segredos e percebemos que “não estamos sozinhos”. O Netflix clama que elaborou um magistral algoritmo que vai aprendendo os gostos do assinante. Mas será que apenas a escolha de três títulos no início da assinatura servem para construir o perfil? Afinal, são exemplos erróneos, pois surpreendem o novo assinante que clica nos três primeiros que lhe agradam, em vez de esperar pelos três de que realmente gosta (passou-se comigo).

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Mas a bomba que estourou é que a Netflix admitiu que usa experiências psicológicas para atrair os espectadores aos seus programas. E isto é bem diferente de um algoritmo.

Não se trata de amarrar o Alex DeLarge à cadeira e prender-lhe as pálpebras com molas (ver Laranja Mecânica e Malcom McDowell) obrigando-o a ver e rever imagens televisivas, mas é o exemplo que me veio à memória quando soube que o Netflix trata os espectadores como cobaias para perceber o tipo de imagens que os fazem escolher uma série para seguir e que realmente continuam a ver. Toda esta informação (data) recolhida, é estudada para levar mais pessoas a clicar neste ou naquele show, nesta ou naquela imagem ou poster. E isto funciona para as estreias, anunciadas com pompa e com campanhas multimeios de orçamentos incalculáveis.

Para cada nova série ou promoção, o Netflix tem seis imagens pré-escolhidas que são mostradas a grupos de 100.000 utilizadores no teste a que chamam A/B. Uma das seis imagens é a “oficial” aprovada pelos estúdios de produção do filme ou série que, desta forma, concorre com outras cinco. A questão é simples: “conseguiremos puxar mais pessoas com uma determinada imagem?” Existem balizas para chegar à conclusão e uma delas é saber que se os utilizadores não começam a ver qualquer coisa nos primeiros 90 segundos, o mais certo é saírem da aplicação Netflix. E isso é um “no go” imperativo, tal como o Mark faz no seu Facebook ao obrigar, cada vez mais, a que toda a comunicação seja integrada na plataforma, “castigando” quem puxar os utilizadores para fora da rede social (por exemplo, Youtube ou blogue).

Para além destes estudos, o Netflix (estou a ter esta discussão de género neste preciso momento, será O serviço Netflix ou A plataforma Netflix, masculino ou feminino?) quer personalizar as imagens consoante o país, e não tardará, o sexo e a idade.

Seremos assim tão previsíveis que nos comportamos como ratos em laboratório? Mas ratos que escolhem uma determinada acção a 4K?

Vejam o que é o teste A/B.

Vejam o que se diz sobre a optimização da experiência de Streaming com estudos científicos de dados.

Ou mesmo sobre a Plataforma de Experimentação Netflix.

 

João Gata

Começou em vídeo e cinema, singrou em jornalismo, fez da publicidade a maior parte da vida, ainda editou discos e o primeiro dos livros e, porque o bicho fica sempre, juntou todas estas experiências num blogue.

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