Vamos por partes.

Primeiro: o que pretendemos de um automóvel?

Que seja eficaz, seguro, equipado, rápido, potente, bonito, completo

Segundo: o que precisamos de um automóvel?

Que seja eficaz, seguro, equipado, completo

Terceiro: o que podemos comprar a muito custo?

Eficaz, seguro, talvez bonito

Quarto: O que geralmente conseguimos?

Depende

Quinto: e um motor de 3 cilindros com 90 cavalos num corpo elegante, serve?

Talvez. É eficaz, seguro, equipado, rápido, potente, bonito e completo?

 

 

Estas são as questões lusitanas (e não só) para o bem e para o mal. Queremos tudo num carro e, na maior parte das vezes, não conseguimos metade do que o que desejamos e, pior, temos de aceitar o que nos dão.

Quando, ainda por cima, atravessamos uma das mais complicadas crises (de todos os valores), há que contar com todas as pequenas variações, sejam mecânicas, de segurança, de conforto, de prazer e lazer.

Escolher um carro em Portugal sempre foi uma tarefa mais complicada que nos restantes países europeus. As razões são muito simples: temos os carros mais caros da europa e temos os ordenados mais baixos da mesma. A questão, complicada, passa pelo que podemos adquirir e não pelo que gostaríamos de conseguir.

É neste campeonato que se faz o mercado luso, o tal dos citadinos ou a famosa classe B. Citadinos que, porque as marcas têm e pagam empresas de comunicação, publicidade, marketing relacional, estudos QE e QI e tantas outras coisas, têm de oferecer mais pelo mesmo, ou seja, fazer com que a percepção seja atendida e os valores minimamente correspondidos. Resumindo, fazer com que um classe B seja quase um C.

É neste campeonato que a Renault tem parte, uma grande parte, do seu core business, principalmente em Portugal. O Clio sempre foi a mais valia desta marca francófona, a par de uma relação privilegiada, porque fabril, em Cacia. O coração português sempre gostou desta marca francesa e isso reflecte-se desde o sucesso R4 e R5 e por aí adiante.

E agora entra a minha opinião em relação ao Clio: nunca me disse nada. Nunca olhei para ele como possibilidade mas, num repente e numa geração, mudei de opinião. E porquê? Porque… vamos a algumas razões:

Primeira: foi buscar truques a uma marca italiana reconhecida pelo seu design

Segunda: equipou as versões de forma coerente e racional

Terceira: equipou uma carroceria crescida e mais dinâmica com um motor impressionante

Quarta: apostou no elemento emocional

Quinta: conseguiu um resultado fantástico

 

Não é a primeira vez que tal sucede, veja-se o caso do Alfa 147 que conseguiu terminar com os problemas 33. Ou os novos Fiesta que melhoraram francamente a imagem da Ford, sem mencionar os DS3 que terminaram a má memória dos AX; Chegou o tempo em que o Clio pode ser o utilitário a bater.

 

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Razões

As dimensões aumentaram em todos os campos excepto em altura. Ou seja, alargou-se e estendeu-se o utilitário, dando-lhe uma imagem com flancos nas cavas das rodas mais alargadas e uma traseira rasgada e com faróis horizontais que forçam essa noção. Uma dinâmica invulgar mas já tentada: quem se esquece (malta com mais de quatro décadas) dos alargamentos nas cavas das rodas que o Opel Corsa 1 conheceu? Aquilo é que foi racing, não?

Estas linhas dinâmicas têm força. E se a isso juntarmos o bom truque da abertura das portas traseiras escondidas nos pilares (o 147 será para sempre copiado por causa disso), garantimos o design de um coupé. Mas aqui pergunto: porque quis a Renault ter mais aquele “petit” triângulo envidraçado com que continua essa porta e essa abertura, pois nem acresce luz ao habitáculo, nem visibilidade ao condutor?
Estranha essa solução e, a meu ver, poupavam-se uns dinheiros se a retirassem.

 

 

 

 

O design

Marca, definitivamente, esta quarta geração do Clio. Assinada por Laurens van den Acker, um holandês (imagine-se as discussões num “país-mãe” que faz gala nos seus designers) que teve coragem de assumir o que os gauleses não conseguiam, faz com que, num repente, se fale do Clio. Atenção: as motorizações são sublimes, mas é do design, do traço, da primeira noção que se fala. E eu senti isso a cada minuto. A Renault “deu-me” a versão com aquele laranja encarniçado das fotos oficiais e, garanto, foi visto, comentado, espreitado, apontado e discutido por todos quantos passavam por ele. E não, isto também aconteceu fora de Lisboa, pois levei este novo Clio a dar uma volta para tentar perceber se este motor 0.9 valia alguma coisa.

Posso aqui deixar já uma nota pessoal: este Clio assume uma presença a que nunca esteve habituado. Se bem que nas versões com as cores mais clássicas (prateado, prateado escuro, prateado menos escuro) perca metade da sua garra e até passa despercebido, na versão alaranjada é sublime. Dá nas vistas e de uma boa maneira. Se optarem pelo novo Clio, façam-vos o favor e escolham esta cor.

 

 

 

 

 

O interior

E os elementos encarnados dentro do habitáculo conferem-lhe uma alegria real, para lá do ar mais competitivo tão a jeito de um condutor lusitano. O tablier está bem desenhado e os instrumentos são de fácil leitura, com um velocímetro digital a meio de dois elementos mais tradicionais. Esclareço que o comprador pode escolher um de três packs e tem uma lista de extras à disposição.

Ao centro está a consola que alberga o MEDIA NAV e o sistema de ar condicionado. Este ecrã táctil de 7” é o elemento mais inovador na nova gama e o que dá mais nas vistas, estando muito bem arrumado e que é de fácil acesso. De salientar que existem entradas USB e AUX mas não existe uma entrada para CDs o que, a meu ver, tem toda a lógica. O cliente tipo deste novo Clio é um jovem urbano conhecedor e utilizador de novas tecnologias (que já não são tão novas) e para quem o CD está quase morto. Para além do áudio, com boa qualidade e umas colunas que até dão nas vistas, temos o sistema de navegação NAV’nGO da Tom Tom e sistema de alta voz para telemóveis que tenham Bluetooth (logicamente que também se pode ouvir música desta forma).

Se dou nota muito positiva ao painel de instrumentos e a esta consola, assim como nos bons acabamentos em algumas secções, tenho também de apontar o mau plástico presente na tampa do porta luvas e que surge aqui e ali, e o acabamento preto brilhante nas portas que, ou muito me engano, ou vai conhecer muitos riscos inestéticos. Mas que faz um belo contraste com as aplicações a imitar metal, isso faz (acabamentos também presentes no volante).

O espaço é amplo e confortável para quatro adultos. O quinto já vai sofrer em longas viagens, mas não é dramático. A mala também tem espaço suficiente para alguma bagagem com 300 litros.

Existem, contudo, pormenores que não me convenceram. Em primeiro lugar, os vidros traseiros não são eléctricos. Isto para mim é muito importante, pois foi factor decisivo de compra quando tive o meu cão. Depois as pegas interiores do porta bagagens. Mas o que é aquilo? Escorregam, estão altas de mais e não ajudam em nada ao fecho da porta. Renault, há que resolver isto.

 

 

 

 

Equipamento desta versão

De série, na versão menos equipada Confort, o novo Clio oferece o cartão/chave Renault que destranca/tranca o carro por aproximação e serve para arranque, Cruise Control, computador de bordo, os dois faróis led diurnos frontais na grelha (numa posição pouco usual), sistema Stop/Start, ABS, Hill Assist, ESP e um conjunto de Airbags (cabeça e torax).

Existem muitos extras e opções, mas passo já para a versão de ensaio, Luxe, que inclui também o ar condicionado Automático, sistema ECO (Stop/Start com radiador com lâminas móveis e indicador de momento ideal para mudança de relação visível no ecrã digital), os muito úteis sensores de chuva e iluminação, jantes Passion com 16”, volante em pele multi-funções e o já mencionado Media NAv.

Estão ainda à disposição alguns packs de extras, sendo que a versão intermédia é a Dynamique.

 

 

 

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O motor TCE

Quando a Renault me deu a escolher entre a versão diesel ou gasolina, nem hesitei. Queria mesmo experimentar este tão badalado motor a gasolina com apenas 0,9 litros e três cilindros, injecção electrónica e turbocompressor, com uns impressionantes 90 Cv/5000 rpm e um binário máximo de 135 Nm/2500 rpm.

Soava bom demais para ser verdade até que me sentei e comecei a guiar. É um motor fantástico para cidade, rápido, eficaz, atrevido, despachado. Manobrá-lo é imensamente divertido, também devido à direcção muito leve e a uma boa caixa manual com cinco relações que me pareceram bem ajustadas.

Em estrada é um pouco mais monótono, mas tem ainda força para poder fazer uma ultrapassagem mais à risca. Como é largo, é bastante estável e aqueles centímetros a menos em altura melhoram muito o comportamento, se bem que em curvas mais acentuadas senti necessidade em estar mais atento e corrigir ligeiramente o volante aquando algumas lombas.

Em auto estrada temos a ajuda do Cruise Control e ainda bem, pois as reações são neutras e convém ajustar a velocidade máxima que queremos manter para se poupar algum combustível.
Consegui uma boa média, entre os 6 e os 6,5 litros e um depósito fez cerca de 650 km.

Resumindo, este motor é, numa palavra, fantástico!

 

 

 

 

 

Concluindo

Um belo motor, comportamento divertido e eficaz, boa lista de equipamento e extras e um design fantástico, atira o novo Clio para um patamar de desejo emocional que nunca tinha conseguido.

O configurador da Renault permite a escolha de packs ou extras soltos e esclarece as nossas dúvidas.

Gostei bastante deste novo Clio e, para citadino, é uma opção muito interessante com preços adequados. Tem dois ou três pontos menos bons, que referi, mas são compensados pelo equilíbrio do conjunto.

Acima de tudo, há que dar os parabéns à marca por ter apostado num design mais irreverente o que não deixou de ser arriscado.

 

E pela terceira vez, o Xá das 5 vai dar notas de 0 a 10.

  • Design                          8
  • Motor                           8
  • Comportamento       6
  • Conforto                      5
  • Equipamento             7  (na versão ensaiada)

 

Preço

Clio Luxe TCE 90 com pintura Metalizada especial+ Pack Look exterior.

Valor total (já com opções): 17.230€

 

João Gata

Começou em vídeo e cinema, singrou em jornalismo, fez da publicidade a maior parte da vida, ainda editou discos e o primeiro dos livros e, porque o bicho fica sempre, juntou todas estas experiências num blogue.

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