Sabe bem voltar a fazer crítica cinematográfica, arte que deixei há mais de um quarto de século. Valerian e Besson obrigaram-me a isso.


Confesso: sou fã do Luc Besson (cuja carreira tem, sei bem, mais baixos que altos) e fanático da dupla Valerian/Laureline. Agora imaginem o medo que tive ao sentar-me no escuro do cinema para o visionamento deste filme que, sim, é um épico de entretenimento pensado para as massas.

Besson não é novato na ficção científica, muito pelo contrário, e poucos se esquecem do “5o Elemento”. Aliás, a ultra-mega-global cidade dos mil planetas e também o “grand bazar” têm muito a ver com a cidade futurista que o táxi guiado por Bruce Willis nos ajudou a descobrir e que, naturalmente, é baseado nos mundos mágicos e originais criados pela dupla maravilha Mézières e Christin (Amén).

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Photo credit: Vikram Gounassegarin

Encontro neste Valerian alguns toques de génio, uns quantos recados ao establishment norte-americano, um piscar de olho às novas gerações que nunca ouviram falar da dupla – quanto mais folhear um dos álbuns -, uma mão cheia de situações bem conseguidas, personagens que continuarão para uma sequela que se adivinha e muitos pormenores que obrigam a um segundo, quiçá terceiro, visionamento.

É é por eles que começo: Besson perde-se numa luxúria de cor, imagem e movimento. Abusa da tecnologia para acamar layers em cima de layers com pormenores múltiplos em cada um, numa frenética sobreposição de ritmos narrativos, paralelos, vibrantes que… pecam por ser tantos em tão pouco tempo (e espaço, passe a graçola fácil). É que dá vontade de parar o frame e apreciar cada centímetro quadrado do enquadramento, tal a multiplicidade de elementos.

Existem “recados” ao império Lucas/Disney (gloriosas batalhas espaciais com inúmeras naves nas suas ousadas trajectórias, fora as perseguições que nos fazem fisicamente desviar dos obstáculos) e também ao mundo Avatar criado por Cameron: estas novas Gemas são mais perfeitas, mais delicadas, mais expressivas que qualquer outra entidade digital existente até à data. Acreditam em empatia à primeira vista? É por aí.

Besson leva ainda mais longe o contacto interespécies, ao apresentar um banquete de novas e bizarras, amáveis ou assustadoras, raças de carne e osso, ectoplasma ou feixes de luz. O aperto de mão, humano como só ele, faz-nos viajar ao longo de séculos de uma forma muito bem construída a que uma dupla Kirk/Spock já nos habitou também ao longo de muitos anos.

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Destaque para o trio de Shingouz, vendedores de segredos de qualquer espécie a qualquer valor, desde que seja em triplicado, que no filme são muito mais gentis que nos livros, em que surgem sempre de carranca quase mimetizando abutres.

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Copyright: © 2016 VALERIAN SAS Ð TF1 FILMS PRODUCTION.

Mas o prémio do bicho mais quiduxo da aventura vai para a Rhiann…. desculpem o entusiasmo, para o Conversor (Grumpy Converter) que também é diferente do original que aparece sempre mal disposto e enjoado (daí o grumpy).

Mas sim, voltemos à Rhianna. Não vai mal, não senhor, embora a sequência seja aflitivamente próxima do pior momento do “5º Elemento”, a trágica Ópera Espacial. Aqui é um pouco diferente, uma peça, vá lá, mais despida e menos histérica. Enfim, não quero levantar o véu à narrativa, mas é um pouco estranho começar o filme com Bowie (também, who else?) e terminar com uma “popinha” de encher chouriço. Vale a banda sonora do sempre competente Alexandre Desplat, o francês que está na moda para realizadores europeus e americanos mais esclarecidos.

Rhianna até mostra como se faz ao actor Dane DeHaan que encarna Valerian. Este macho quase alpha tem pouca chama, falta de presença e força de personagem. Mas gostei francamente de Cara Delevingne que é uma boa e eficaz Laureline. Kudos também para os minutos em que ficamos a saber que os Replicant também envelhecem, através da fugaz aparição de Rutger Hauer. Afinal, são tão humanos quanto nós. Clive Owen faz de Clive Owen e convence porque o Clive Owen tem-se especializado ao longo dos anos a fazer dele próprio.

Espremendo tudo, e é difícil beber o sumo resultante, há que chegar a uma conclusão. Será que gostei? Bom, pelo menos posso dizer que já vi uma das sagas que mais me impressionou durante a adolescência em formato cinematográfico e que deu para encher o olho.

Gostei muito de algumas coisas, gostei pouco de muitas outras. Besson parece que se descontrola quando tem muito dinheiro disponível. Gosto mais dele, aliás, venero-o em obras como “Le Grand Bleu” ou “Léon”…. Posso até acrescentar “Angel-A” por tudo o que engloba. Percebe-se que ele liga mais à história e dedica-se de corpo e alma à construção de personagens.

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Dane DeHaan and Cara Delevignge in Luc Besson’s VALERIAN AND THE CITY OF A THOUSAND PLANETS.
Credit: Domitille Girard
Copyright: © 2016 VALERIAN SAS Ð TF1 FILMS PRODUCTION.

Em Valerian, preferiu juntar o que não conseguiu fazer no “5º Elemento” com a animação de “Artur e os Minimeus”, adicionou 200 milhões de dólares, agarrou em todos os conceitos dos autores e misturou numa explosão de luz e cor que concentra o “core” de todos os filmes de FC que veneramos.

Dá-se bem? Houvesse o bom senso de dividir este por três longas metragens e trabalhado melhor a narrativa, poderia ter acertado no alvo. Mas preferiu dar ênfase ao visual – talvez piscando o olho a toda uma nova geração que nunca leu BD – e enchendo o plot com os quadros simples em que os bons são mesmo bonzinhos, os maus são uns desgraçados e a raça humana é realmente boa a destruir este mundo e todos os outros. Há críticas sociais e políticas, claro, mas perdem-se no folclore de tanta algazarra.

E então?

Gostei! Tinha de gostar! E vou revê-lo na ante-estreia. Encontro-vos lá.

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Até lá, e se tiverem interesse em ler os “quadradinhos”, aqui têm um link imprescindível!

Deixo-vos também o plot para criar muito açúcar na boca.

No século 28, Valerian (Dane DeHaan) e Laureline (Cara Delevingne) são dois agentes especiais encarregados de manter a ordem em todos os territórios humanos.

Sob as ordens do Ministro da Defesa, Valérian e Laureline embarcam numa missão até à espetacular cidade de Alpha, uma metrópole em constante expansão para onde espécies de todas as partes do universo convergiram durante séculos para partilharem conhecimento, inteligência e culturas. Mas há um mistério no centro de Alpha, uma força negra que ameaça a pacífica existência da Cidade dos Mil Planetas, e Valerian e Laureline vêem-se obrigados a identificar a fonte desta sinistra ameaça e a salvar não apenas Alpha, mas o futuro do universo.

VALERIAN E A CIDADE DOS MIL PLANETAS – Lista de Créditos

Título Original: Valerian and the City of a Thousand Planets

Realizador: Luc Besson

Elenco: Dane Dehaan, Cara Delevingne, Ethan Hawke, Clive Owen, John Goodman, Rihanna, Herbie Hancock.

João Gata

Começou em vídeo e cinema, singrou em jornalismo, fez da publicidade a maior parte da vida, ainda editou discos e o primeiro dos livros e, porque o bicho fica sempre, juntou todas estas experiências num blogue.

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