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Ontem dei por mim a admirar uma mesa de um café em que três, presumivelmente, amigos olharam permanentemente os seus telefones. Durante cerca de meia hora, a única comunicação aconteceu quando um deles recebeu uma mensagem ou foto mais engraçada e mostrou ao amigo do lado. O da frente não teve direito, aliás, nem se apercebeu dessa movimentação.

A questão da dependência é já considerada um risco de saúde pública pelas autoridades mais competentes (ainda vão existindo pelo mundo). E nem se trata apenas de exclusão, mas sim de reais danos físicos (pescoço, coluna, visão, dedos, pulsos) como psicológicos (adicção extrema).

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Um dos países que já está a ser muito afectado com este novo tipo de problema social e individual é, como não poderia deixar de ser, um emergente. O império do meio, aquele cuja paciência é quase eterna, acordou tarde para o capitalismo. Mas quando o fez, deu-lhe com toda a alma.

Os relatos de tal pandemia são conhecidos e delirantes, desde ecrãs gigantes para mostrar aos habitantes de, por exemplo, Xangai que, afinal, ainda é dia, pois a luz natural já não atravessa o inacreditável nível de poluição que envolve as grandes cidades, como a loucura de um jovem que trocou um rim por um iPhone (que já está obsoleto).

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Mas a razão deste post é outra: na cidade de Chongqing, a empresa Meixin teve uma ideia para alertar as pessoas para este novo problema, ao mesmo tempo que esperaram reacções populares que evitassem os encontrões físicos, empurrões e quedas (digo eu, pois o meu mandarim anda frouxo) e a pressa de quem trabalha contra a de quem… “texta”. Exactamente, ao que parece, as pessoas textam tanto que atrasam a velocidade média de quem caminha. E como sabemos que eles são muitos, o caos vai, mais tarde ou mais cedo, instalar-se nos nossos passeios (nem a substituição da calçada à portuguesa safará o drama).

A proposta em jeito de brincadeira séria era simples: pintaram-se faixas para obrigar os peões a decidir por qual “se fariam” ao segmento de recta: rápida para caminhar, lenta para quem vai agarrado ao smartphone.

O resultado não foi o esperado, pelo que a porta voz da Meixin, Nong Cheng, declarou aos media: “as pessoas que olhavam os seus smartphones nem se deram conta da sinalética. As outras acharam piada e pararam para filmar ou fotografar, o que agravou o congestionamento”. A ironia, por vezes, não funciona, foi a conclusão tirada.

Esta ideia seguiu uma semelhante já tentada em Washington e que foi gravada para o canal National Geographic. O resultado foi exactamente o mesmo, ou seja, chineses e americanos estão vidrados no seu ecrã Gorilla 3.

Servirá este exemplo como alarme para uma Europa um pouco mais calma, à excepção de jovens sentados em alegre cavaq… em amena conversa textual?

 

João Gata

Começou em vídeo e cinema, singrou em jornalismo, fez da publicidade a maior parte da vida, ainda editou discos e o primeiro dos livros e, porque o bicho fica sempre, juntou todas estas experiências num blogue.

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