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A cada dia que passa, mais humanos adoptam um assistente virtual (AI) para ajudá-los em algumas tarefas, seja marcação e alarmes de agenda, pesquisa de respostas simples como saber o estado do tempo para amanhã, encomendar pizzas, fazer ligações telefónicas e tantas outras coisas. O menu de serviços e opções está constantemente a aumentar e, para algumas pessoas, a fronteira entre o real e o imaginário começa perigosamente a desvanecer-se.

Este novo mundo começa a trazer à tona um tipo de comportamento que, julgava eu, ser exclusivo de humanos pouco dados à cortesia e educação: o abuso verbal que muitas vezes termina em assédio sexual e que agora ataca assistentes virtuais, ou seja, “bots”. Mas como é que isto pode acontecer?

Pelas palavras de Ilya Eckstein, CEO da Robin Labs que tem uma plataforma para ajudar motoristas de longo curso, taxistas e outro tipo de profissões que dependem de veículos motorizados, “as pessoas querem namorar e algumas sonham com uma namorada subserviente ou até mesmo um escravo sexual. Pode muito bem ser apenas pela piada ou até pela possibilidade em fazê-lo, mas julgo que este comportamento esconde algo mais profundo”.

Será um próximo alarme social? A ver pela relação que Joaquin Phoenix (no papel de Theodore) cria com Samantha (o bot assistente protagonizado pela voz de Scarlett Johansson) no filme Her, a interacção humana com a máquina é assustadoramente real. Este tipo de relacionamento está presente ao longo de toda a ficção científica escrita ou filmada com casos recentes de sucesso como a série televisiva Humans ou o extraordinário filme Ex-Machina com um robot Ava tremendamente sensual.

Eckstein tem estudos que mostram que 5% das interacções estão catalogadas como assédio sexual, mas acredita que este número peca por defeito devido à dificuldade técnica que o sistema ainda tem para a identificação automática deste tipo de casos. Contudo, sabe que está a subir em flecha, tal como Deborah Harrison, uma das muitas pessoas que escreve código para a assistente virtual Cortana da Microsoft, esclarece que muitas das primeiras questões formuladas tinham a ver com a vida sexual da Cortana.

Mas a questão é complexa: o que desejam as pessoas, afinal? Há diversos comportamentos: desde os jovens que querem pregar partidas ou descobrir algo mais sobre a sexualidade aos utilizadores que desejam perceber qual é o limite “humano” da tecnologia, surgem casos muito graves de enorme agressividade e exposição de fantasias degradantes, outras muito violentas, com forte necessidade de controlo e domínio. No outro lado da moeda, estão os desesperados em conseguir criar uma relação afectiva que lhes sirva como interlocutor para longas horas de “conversa”. Estes, pelas palavras de Eckstein, tendem a ser os mais teimosos e que experimentam os vários bots existentes até descobrirem o que mais lhes agrada.

Os engenheiros das várias corporações trabalham afincadamente sobre este (e outros) problemas e a grande discussão gira em torno da humanização do bot (ou serviço). A Google tenta outro caminho com o Google Assistant que, mesmo optando por uma voz feminina, não tem representação figurativa. Mas está sozinha nesta demanda, pois todos os outros (mais conhecidos) tentam a humanização em forma feminina muito distinta e poderosa mesmo que seja apenas através da voz: Alexa (Amazon), Siri (Apple) e Cortana (Microsoft) encantam miúdos e graúdos.

Será que este é o caminho, tantas vezes imaginado e escrito por pensadores vanguardistas, do relacionamento entre sapiens-sapiens e AI-virtual-bots?

João Gata

Começou em vídeo e cinema, singrou em jornalismo, fez da publicidade a maior parte da vida, ainda editou discos e o primeiro dos livros e, porque o bicho fica sempre, juntou todas estas experiências num blogue.

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