A prática já tem designação: “Rui-Katsu”, ou seja, , que em português significa “lágrima”.


Quando fui menino, uma das principais ordens sociais e culturais era o impedimento em deixar verter uma lágrima que fosse: “os homens não choram”, “não sejas mariquinhas”, “estás a chorar porquê, alguém morreu?” eram mimos gritados em casa, na escola e na rua, mesmo entre o grupo de amigos da vizinhança.

Se bem que esta situação tenha, aqui e ali, mudado, e até já podemos acompanhar um homem no seu desgosto momentâneo com um abraço e o conselho “vá, chora, faz-te bem”, isto continua a ser aplicado a um momento de extrema gravidade como a morte de um ente querido, a perda do emprego, uma separação não antecipada, ou mesmo quando o clube de futebol do coração perde um ponto em casa do adversário.

Toda esta questão do “macho que é macho não chora” tem consequências graves ao longo da vida. Reprimir sentimentos faz mal e longe de nós sermos apanhados a chorar num qualquer filme: balbuciamos um “não é nada, foi uma mosca que me entrou no olho” ou “estou muito constipado”. Estamos bem treinados e a imediata reacção a um olhar que nos capta num momento mais sensível é automática. Afinal, fomos educados ao longo da vida para ter uma resposta na ponta da língua.

Mas chorar faz bem. Sou da geração que não podia chorar mas, confesso, a cada ano que passa tenho menos vergonha em ser apanhado numa tamanha desgraça sensitiva. Choro que nem uma Maria Madalena em filmes o mais populares possível, como a cena dos posters em Love Actually, ou em coisas mais “nobres” como quando o enorme (em todos os sentidos) Coffey morre em The Green Mile.

Fotograma do filme Crying with the Handsome Man

À medida que este tabu social vai perdendo força, chorar passou a ser cada vez mais considerado uma coisa boa, catártica e até saudável. Enquanto se discute se é uma emoção apenas humana (temos visto filmagens de animais que toldam essa noção), há quem leve muito a sério tudo o que lhe está relacionado. Por exemplo, o empresário nipónico Hiroki Terai foi mais longe e descobriu a pólvora: tornar o choro numa actividade económica.

A prática já tem designação: “Rui-Katsu”, ou seja, , que em português significa “lágrima”.

Criou um serviço que encoraja as pessoas a chorar em grupo enquanto vêm um filme produzido para o efeito. Enquanto choram, um rapaz esbelto vai secando as gotas de forma gentil, cuidadosa e muito honrada.

Esta técnica parece estar a resultar, visto que as senhoras saem da terapia com uma opinião vincada e idêntica, garantindo que reduz o nível de stress e que se sentem bem melhor. Não sabemos é se tal sentimento se deve ao filme que viram ou ao rapaz bonito e gentil que lhes secou as bochechas.

Esta curta metragem que podem ver intitula-se Crying with the Handsome Man, e foi realizado por Darryl Thoms que nos demonstra que o mundo não é mesmo todo igual e que o Japão precisa urgentemente de rebentar com a glândula lacrimal.

João Gata

Começou em vídeo e cinema, singrou em jornalismo, fez da publicidade a maior parte da vida, ainda editou discos e o primeiro dos livros e, porque o bicho fica sempre, juntou todas estas experiências num blogue.

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