Martin Logan Crescendo – ensaio

0

 

 

 

 

 

martin logan

A cada mês que passa, os nossos mais básicos sentidos são recolocados à prova pela mais recente coluna de som que trabalha com ou sem fios, mas que é “una”, pois apresenta-se numa única caixa que, mesmo assim, consegue emitir uma envolvência estereofónica tal que começamos a questionar a nossa própria noção, vinda de muito trás, do que é um som de real qualidade.

Tenho vindo a publicar algumas impressões sobre esta nova fórmula, sem fios e transportável, de ouvir música. Ficou-me na memória a fabulosa Bose Soundlink Mini (ler ensaio) que, independentemente da sua dimensão, enche uma sala média com uma ambiência digna de relevo. Também espero a oportunidade de receber em mãos uma das novas Sony X7 ou X9, já elevadas a High Resolution Audio, e que tive a oportunidade de descobri-las, mesmo de forma breve, na viagem que fiz aos estúdios Wisseloord.

Portanto, já não sou um novato neste segmento, mas confesso que é sempre com aquela pequenita dúvida ou incredulidade, talvez até uma má vontade que ainda sobrevive lá nos confins do meu ser analógico, que desembrulho a mais recente prova que o mundo Hi-Fi mudou.

A caixa que esconde a Martin Logan Crescendo é grande e pesada. Fui buscá-la à Imacústica de Lisboa, onde ainda permaneci algum tempo em cavaqueira sobre “onde isto chegou”, rodeado pelos mais nobres equipamentos para puro deleite melómano e que custam fortunas consideráveis.

O embrulho que cobre outro embrulho que vinha numa caixa de cartão que envolvia outra caixa também de cartão mas já com a imagem do produto, demonstra todo o cuidado extremo na embalagem de um produto e uma das razões que leva a Martin Logan a ser das mais apreciadas marcas de alta fidelidade feita e criada para quem gosta e… pode. Pensei para os meus botões que esta Crescendo até pode ser a primeira e real hipótese de pessoas com menos posses mas o mesmo ouvido maduro e refinado, pois não passa (por pouco) a fasquia psicológica dos 999 euros que continua a ser muito dinheiro por uma coluna mas… menos oneroso que um sistema, mesmo básico, de uma marca com lugar na história. E pensem nisto: ao contrário dos automóveis, um bom equipamento áudio, assim como um relógio ou caneta, mantêm durante a vida um valor comercial pouco desvalorizado (por vezes muito valorizado). Há que ter todos estes pontos em consideração quando pousamos esta peça verdadeiramente deslumbrante na mesa que vai servir de base para este ensaio.

martin logan crescendo finishes

As linhas

As imagens dizem tudo, mas convém reforçar alguns apontamentos que podem escapar ao olhar digital. A Crescendo é grande e pesada. O corpo é feito de metal, madeira (podemos escolher entre acabamento em preto brilhante ou folheado a nogueira, que foi a que me calhou) e base de suporte e pés em alumínio. Tudo é suave, dá gosto passar-lhe com a mão pelos ângulos, como que apreciando uma bela escultura.

O painel frontal tem apenas um ligeiro espaço onde estão arrumados os leds de ligação. O topo está livre de qualquer botão, qualquer elemento que perturbe o conceito de pureza estilística. Todos eles estão colocados no painel traseiro, onde encontramos a panóplia de ligações analógicas, à corrente, e botões físicos para forçar a conexão sem fios. Já lá vamos.

 

As características

A Crescendo está equipada com um módulo de pré-amplificação DSP de 24-bit/48kHz para o processamento do sinal digital, em conjunto com um potente amplificador Class D, com capacidade para 100W (140W de pico) num sistema de 2.1 canais, com duplo tweeter Folder Motion que, para além de consumirem menos energia, garantem uma qualidade de som invulgar.

São acompanhados por um altifalante frontal de forma oval (e agora deixem-me ir às cábulas técnicas, pois é divertido de reproduzir: ) com cone em polipropileno preto mate de grande excursão, numa câmara não ressonante de formato assimétrico.

Existe ainda uma saída para sub-woofer externo, para quem desejar realmente ter problemas com a vizinhança. Mas não é necessário. A Crescendo adapta-se bem aos tipos de música que oiço, densa e envolvente, mas com inúmeros apontamentos únicos, quase ao acaso que nos arrepiam pela surpresa. Não sou rapaz para coisas pesadas, tipo heavy-hard-speed-trash Metal, como também evito qualquer tipo de Rap ou manifestações folclóricas (não falo, logicamente, de Folk mas sim de concertinas e ferrinhos). Portanto, é uma coluna para pessoas mais calmas e que gostem de ambientes densos ou etéreos.

O resultado é denso, grave, poderoso e com agudos cristalinos, limpos, que nos transportam facilmente para uma imagem estereofónica que os nossos olhos teimam em não compreender.

 

martin

A conectividade

É o segundo cartão de visita da Crescendo, pois oferece quase tudo o que é necessário. Mas começo com um apontamento negativo: está tudo ainda muito virado para o eco-sistema Apple, o que complica o emparelhamento com equipamentos de outras “cores”. Mesmo algumas ligações analógicas são exclusivas para a maçã. Não tenho, como acho obrigatório, uma simples entrada mini-jack 3,5mm directa e simples, o que me impossibilitou ligar um antigo (sete anos) walkman digital da Sony que tem uma qualidade de reprodução invejável (Atrac 3).

Mas, ultrapassado este “pequeno” pormenor, somos brindados com um painel que nos permite ligações em Wi-Fi (mas, atenção, “super compatível” com o sistema Airplay e o inenarrável iTunes Appleianos).

Por Bluetooth, na versão V4.0, podemos reproduzir os formatos SBC, MP3, AAC e apt-X.

A ficha USB é exclusiva para Apple, o que é incompreensível nos tempos que correm.

Safa-nos o tradicional e intemporal analógico via RCA e a entrada Óptica (na caixa vem um adaptador mini-Toslink).

Ainda a podemos ligar directamente à internet através da ligação Ethernet. É até bastante simpático para quem já não passa sem os “fornecedores de música” tipo Spotify e similares.

De salientar que o comando é também especial e semelhante ao encontrado em muitos fabricantes de alta fidelidade, pois obriga a abrir a caixa (e os parafusos) para lhe colocarmos as duas pilhas AA.

martin 3

A conclusão

990€ é muito dinheiro para uma “simples” coluna wireless, mas a Martin Logan Crescendo vai ficar na mesma prateleira da Sony X9, das propostas zeppelianas da Bowers & Wilkins (cuja primeira versão era também dedicada à Apple, erro já ultrapassado) e demais super propostas de grande nível que começamos a encontrar. Portanto, a questão não é o que podemos comprar por 990 euros, mas sim o que podemos obter de 990 euros.

É uma coluna com um design único e invulgar, de materiais e construção fantásticos e que fica bem em qualquer ponto da casa, seja na sala de estar, no quarto principal ou no estúdio do júnior. É até indicada para abrilhantar um pequeno evento social, uma vernissage ou para acompanhar a fingerfood numa qualquer instalação.

É, não tenhamos dúvidas, uma coluna com brilhantismo “social”, mas pondo de lado todo esse figurino, a verdade é que debita um enorme som, caracterizado por uma bela imagem estéreo com graves poderosos e agudos muito bem definidos. A gama média está presente, tonificada e alarga o espectro sonoro, dando mais presença e corpo aos sons mais puros e/ou densos, como também permite ouvir o próprio “silêncio” entre os ambientes.

Deixou um espaço vazio ali na mesa.

 

PVP: 990 euros (com Iva)