A ideia é poderem, num ambiente LEGO que simula Gotham City, Metropolis e outros locais conhecidos das comics da DC, criar um super-vilão ao vosso gosto

Os videojogos tornaram-se uma plataforma de entretenimento à escala global. Quero, com este chavão, dizer que à partida, milhões de miúdos, adolescentes e graúdos investem e dispendem muito do seu tempo livre em jogos.

Portanto, é uma oportunidade enorme para várias marcas direcionadas a públicos mais jovens. Para conseguir chegar a eles, duma forma interativa, divertida e principalmente fixe o suficiente para que queiram, fora do jogo, interagir com eles.

A LEGO é uma dessas marcas e é curioso que assim seja. O casamento entre um videojogo e a LEGO é, em teoria, praticamente perfeito. Utilizar uma plataforma onde mundos dinâmicos, fantasiosos e imaginativos podem ser toldados segundo a vontade do jogador – onde é que poderia falhar?

Poderia falhar, se o jogo se esquecesse de ser estimulante.

Serve este preâmbulo todo para vos falar de LEGO DC Super Villains, o mais recente videojogo da casa dinamarquesa de brinquedos. Se o nome não dá já as pistas necessárias, permitam-me clarificar: sim, isto é um jogo para os mais novos.

A ideia é poderem, num ambiente LEGO a simular Gotham City, Metropolis e outros locais conhecidos das comics da DC, criar um super-vilão ao vosso gosto, enquanto passam diversos níveis com uma equipa composto pelos super-vilões mais conhecidos desta casa.

Enquanto jogo, o resultado final é muito competente. O enredo e o humor são próprios de um desenho-animado de sábado de manhã, o jogo não se leva a sério e a diversidade de personagens ajuda a quebrar a monotonia. Os gráficos e a banda-sonora também são interessantes e ajudam a que o jogador esteja constantemente estimulado.

Se isto fosse um filme interactivo, estava tudo ok. Mas não é. É um videojogo. E a diferença fulcral é que deveria existir para nos desafiar. Para nos levar a interagir com ele. Para nos obrigar a encontrar soluções criativas para solucionar as suas barreiras. E LEGO DC Super Villains, seguindo uma tendência cada vez mais expressiva, não o faz.

Toma-nos por aquilo que os departamentos de marketing adoram chamar de “gerações digitais, com muita pouca capacidade cognitiva de foco”. Assumem, à cabeça, que as pessoas que jogarem isto não tem pachorra para fazer mais que premir botões que surgem no ecrã.

Porque é isso que é necessário para passar este jogo. Premir botões que nos são dados, no ecrã, para ultrapassar as barreiras. Um Simon Says, mas sem a parte do desafio. Seguir o caminho em frente sempre a pressionar os mesmos botões resulta no mesmo.

O que quero dizer com isto é: Somos tidos como pessoas que preferem não ser estimuladas. Ou pior, que não precisam de ser estimuladas, se as suas marcas ou personagens favoritas estiverem bem representadas no ecrã.

Assume-se, que as crianças preferem só andar com os bonecos, sem qualquer tipo de estímulo, desde que pareçam o Joker ou a Harley Quinn. E isso, infelizmente, vende. Apesar de estar fundamentalmente errado.

Permitam-me levar-vos à minha infância. Geração de 90. Os videojogos da época eram bem menos desenvolvidos. Contudo, a dificuldade era superior. Não, pelo puro desejo de ser difícil. Mas porque a construção de um videojogo pressupunha uma escala crescente da dificuldade.

Como numa boa narrativa, a personagem principal precisa de encontrar barreiras que o obriguem a tomar decisões e a evoluir, consoante o caminho escolhido. Todas as decisões apontam para um clímax, onde a personagem – se a história for boa – termina de forma diferente ao inicial.

O design de videojogos aplica a mesma lógica. As mecânicas são-nos apresentadas no início do jogo e, à medida que vamos progredindo, somos desafiados a mostrar a nossa compreensão dessas mesmas mecânicas, em desafios que se tornam cada vez mais difíceis. Não para nos frustrar. Mas justamente para demonstrar que a evolução terá que ser sempre ascendente.

Isso não acontece em LEGO DC Super Villains. E é uma pena. Porque isso transforma-o apenas num anúncio em forma de videojogo. Um videojogo competente, sim. Porém, não um bom videojogo.

Creio que a inteligência das nossas crianças não deve ser insultada com este tipo de experiências. A menos que prefiram apenas produtos que não estimulem o desenvolvimento e compreensão de temas tão importantes como a necessidade do treino e esforço para ultrapassar barreiras, ou o potenciar das capacidades motoras de forma progressiva.

Se os vossos miúdos gostarem MESMO muito da DC Comics e de LEGO, comprem este jogo. Quanto mais não seja para poderem rir um bocado com o humor da história. Mas não esperem daqui algo que possa acrescentar algo. Porque não acrescenta. E, repito: é uma pena.

Carlos Duarte Mendes

Gamer a full-time, profissional de PR nas horas vagas, fanático por RPG's, Pokémon e memes obscuros no Reddit.

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