Ensaio Sony PS-HX500 (quando o vinil se transforma em Hi-Res Audio)

7 Design
7 Construção
9 Inovação
9 Qualidade
7 Factor X5
7.8

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Guardo uma meia centena de vinis, curiosamente ou talvez não, a maior parte deles ainda com um autocolante da Virgin ou HMV, as lojas londrinas de sonho para qualquer miúdo de 20 anos… nos idos 80. Não sei quanto gastei em vinis, mas estourei bem mais em CDs, curiosamente, ambos formatos “mortos”.
Ao contrário de muitos analistas, não alinho no saudosismo do vinil. Sim, o som pode ser mais quente ou orgânico, mas a qualidade está a milhas de uma boa versão digital. Nem mesmo com o investimento de milhares de euros em pratos, células, amplificadores, prés, equalizadores, terminais de coluna banhados a ouro, cabos xpto e, finalmente, as colunas, para conseguir que o som seja uma dádiva divina. Basta ouvir uma boa gravação no mais recente formato de alta definição digital áudio para entender imediatamente porque muitos melómanos estão a abraçar esta evolução.

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Agora se me perguntarem se gosto do vinil, tenho outra posição. Adoro os discos físicos, as capas que muitas vezes são obras de arte, o livreto interno, a visualização dos intervalos das faixas, o retirar do invólucro, o limpar do pó, calibrar o braço, limpar com a escovinha a ponta de agulha… tudo isto é um fantástico ritual. E que se danem os riscos e os saltos. Faz parte da audição, sempre fez… até surgir o digital.

Tenho até uma história caricata para contar: há bem pouco tempo arrumei o gira discos antigo da cara metade por falta de agulha neste mercado lusitano em total derrocada. Passado uns dias, um amigo telefonou-me. Tinha estado a limpar um armazém e descobriu, embrulhado e protegido, o meu próprio e saudoso Technics SL22 ao fim de (podem acreditar) 20 anos. Foi arrumado e esquecido depois de uma memorável, penso eu agora, festa de garagem. Ainda não refeito desta surpresa, recebo um telefonema da Sony: tinham um novo gira discos disponível para ensaio. Mas, atenção, este é o “híbrido” PS-HX500 (e é aqui que os melancólicos e saudosistas vão arrancar os cabelos) pois também permite fazer a cópia do vinil para um formato digital de elevada qualidade.

O Sony PS-HX500 é uma peça bonita de ar clássico, um monólito preto baço (bom, tem aquele tratamento tipo gotinhas em relevo tão próprio das câmaras fotográficas) com três secções: prato, braço com escolha de balanço e peso e botões on/off e escolha da rpm.
Vem muito bem embalado com todos as peças bem acomodadas assim como a tampa de protecção. Atrás, e numa quarta secção independente, encontramos as tradicionais RCA, ligação à terra e ligação USB para se poder conectar a um computador ou equipamento digital.

Todo o processo de reprodução é prático e simples. O braço é muito leve (prefiro-o mais pesado para ser mais confortável na utilização) e o movimento mecânico ascendente e descendente ajuda-nos a escolher de forma muito suave o ponto preciso de leitura, embora a manivela seja demasiado curta, simples e frágil.
Liguei o prato ao meu antigo amplificador da Rotel, o único que tem ligação Phono, essencial para a terra.
Tirei um conjunto de discos da arca que os guarda, limpei-os, vi se tinham riscos para evitar essas secções e sentei-me no chão tal como fazia há muitos anos atrás. Estava a deliciar-me com o longa duração dos Vanity Fair quando me apeteceu beber algo. E foi quando me levantei e andei que aconteceu algo que não esperava: os meus passos no chão de madeira faziam saltar a agulha. Pois… na verdade, a casa dos pais era em placa, mudei para outra também em placa já na era digital e agora habito, pela primeira vez, um andar de charme… em madeira. Mau… tentei perceber quais os espaços que criavam mais saltos e percebi que era ao pé da escada. Era uma questão de evitá-los mas, bastava um caminhar mais rápido para tudo saltar, mesmo dando mais peso ao braço e agulha. Cheguei ao ponto de ter de mudar a localização do conjunto e acreditem que me deu trabalho. Já com mais estabilidade, a experiência recomeçou com resultados muito mais confortáveis.

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O som

Este Sony PS-HX500 trata bem as nossas memórias.  Testei das duas formas que este Sony permite: através da daída Phono para o meu próprio amplificador e através da saída de linha utilizando o amplificador integrado. Decidi testar a impressionante tacitura da voz de Billy Mackenzie por cima de uma complexidade sonora típica dos The Associates. O som através da saída Phono saiu um bocado enrolado, mastigado, com algumas distorções aqui e ali, o que não permitia abusos modernos para todos quantos gostam de ouvir kizomba aos berros. Utilizei em seguida o amplificador integrado e tudo melhorou ligeiramente. Escolhi discos com um som menos cheio e embrulhado que a cacofonia dos Associates, um belo maxi-single do “Visions of China” dos Japan e tudo começou a fazer sentido. Reforcei esta ideia com duas gravações da Deutsche Grammophon para, deliberadamente, colocar um dos primeiros discos da minha vida (aliás, surripiei-o ao meu pai), uma edição com disco e livro com as pautas de Domenico Scarlatti com uma prensagem tão má que já era difícil ouvi-la no todo poderoso Onkyo do meu pai. O som foi demasiado mau para aguentar mais que dois minutos. Concluindo, este Sony (com a célula Audio Technica que o acompanha de origem) tem um comportamento equilibrado e neutro sem deslumbrar. Pelo livro de notas, ficamos a saber que este braço é compatível com algumas das melhores células à venda no mercado (podem procurar em lojas como a Imacústica ou Viasónica, por exemplo) e vale muita a pena esse investimento numa Shure ou Sumiko.

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A gravação para digital

É neste campo que o Sony PS-HX500 se destaca com um intenso brilho. Reparem: está equipado com um conversor A/D interno suporta conversão de ficheiros nativos analógicos para DSD (Direct-Stream Digital) de 2,8 MHz ou digitais de 5,6 MHz!!! Sim, leram bem, 5,6 MHz!!! É aqui que tudo muda pois é o primeiro gira-discos com ligação para um computador que permite uma gravação com tão alta qualidade. Para traduzirmos os nossos discos em ficheiros digitais de alta resolução, só temos de ligar um cabo USB do Sony a um computador (PC ou Mac) e escolher uma editor de gravação áudio disponível pela net, bastando procurar “Hi-Res Audio Recorder” para cortar partes indesejadas da gravação ou dividir faixas. Para ouvir, necessitamos de um outro software (os Mac usam o iTunes) instalado no PC (o mais difícil é escolher um).

formatos de ficheiro
Para além de ficheiros DSF gravados em DSD, também suporta a gravação e reprodução de ficheiros WAV gravados em PCM.

Concluindo

Se ainda tem vinis que nunca foram reeditados em CD ou outros formatos e quer mesmo ouvi-los (matar saudades, sorrir, relembrar memórias, etc.), este Sony é um elemento muito interessante lá para casa. Não só garante uma audição imediata dos riscos e das batatas fitas do que julgávamos em perfeitas condições, como nos faz realmente viajar no tempo (fica uma viagem bem em conta). Mas a grande vantagem é mesmo a possibilidade de copiar as músicas preferidas para um formato digital acima de qualquer suspeita. Esqueça as gravações com “qualidade CD” pois com o HX500 passa a ter a verdadeira Hi Res Áudio. Só por isso, vale bem a pena mas convém, para resultados óptimos, pensar numa nova célula/agulha e fazer esse pequeno esforço. Vai compensar!

 PVP: 530,00 €